quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Gráfico

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O espelho d’água tudo duplica;
a Caxemira é uma folha de papel com tinta fresca
que Deus dobrou ao meio e abriu de novo.
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Língua Afiada

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Ah, mosquinha...
Ah, mosquinha...
Papou mosca.
Lagartixa...
Lagartixa...
Papou mosquinha.
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A idéia de Arthur

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A idéia era recém nascida: original, revolucionária e impactante. Coisa rara, para poucos, dessas que só se tem poucas na vida. Uma idéia capaz de transformar as coisas da forma como elas se encontram. Capaz de redefinir conceitos e paradigmas. Resumindo: uma idéia e tanto!

Ela chegou à cabeça de Arthur na tarde de um dia chuvoso. Ele certamente deveria ter reunido os pré-requisitos para o seu aparecimento. Estava relaxado, havia estudado bastante, tinha consumido todos os elementos necessários para a sua formação. Era uma questão de tempo: com tudo ali na sua cabeça, uma hora, o seu inconsciente resolveria abrir espaço para ela, a magnífica idéia que mudaria o mundo.

Quando Artur se deu conta pela primeira vez que tinha tido uma idéia daquele tipo se assustou. Não era coisa comum de se ter assim a qualquer hora. “Tenho que botar isso no papel” — pensou. E se pôs a procurar uma folha em branco e uma caneta.

“Trrrriiiiimmmm”.

Toca o telefone. Era Amanda, a namorada de Artur. Conversa, desentendimento, reconciliação. O que ele tava fazendo mesmo? Bem, era melhor tomar um banho porque em pouco tempo ele deveria estar na casa da namorada.

Arthur adorava massagear seus cabelos cheios de espuma. Ele achava aquilo relaxante. Realmente aquele ato devia estimular o pensamento do rapaz, pois, naquele momento, a idéia retornou com toda força à sua mente.

Era isso que ele estava indo fazer quando o telefone tocou! Mas, naquele momento, com seu corpo repleto de espuma, seria impossível anotar qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça.

Ele estava se enxugando quando o telefone tocou novamente. Amanda já estava pronta. É, ele sempre perdia a hora lavando o cabelo e, agora, só lhe restavam quinze minutos para estar na frente do prédio da namorada.

Apressou-se, mas foi inútil. Ouviu reclamações quanto ao atraso.

Foram assistir a um filme bobo, e comeram em um local igualmente bobo. No fundo, formavam um casal um pouco bobo.

Chegaram tarde em casa. Amanda dormiu na casa de Arthur esta noite. Antes de dormir, a idéia que estava em sua cabeça, foi em que ele prestou menos atenção: Amanda era bonita e encantadora.

Mas a idéia era não só muito boa como persistente, pois continuou ali, na cabeça de Artur, durante toda a noite. Levantar? Estava tão confortável ali na cama. O corpo de Amanda o esquentava do frio do ar-condicionado e os travesseiros já estavam posicionados da maneira que ele gostava. A idéia podia esperar até amanhã.

Não, ela não podia. Naquela madrugada a idéia se irritou com Arthur e foi embora. Rumou para a cabeça de outro que tivesse a coragem, ou a disposição de botá-la em prática.
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Acordou sem se lembrar mais dela. Havia se esquecido. Só foi se recordar que já havia tido aquela idéia alguma vez na vida quando, meses depois, abriu os jornais e viu como a pessoa que a havia tido havia ficado famosa e conceituada. Ele se xingou por dentro, mas de nada adiantava. Arthur era mesmo bobo, e as boas idéias não encontram ambientes confortáveis na cabeça de gente deste tipo.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mims

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Eu sou falso
o tempo todo.
Infinitas faces
convivem em mim.
Por vezes, brigam entre si,
se acusam, se sabotam.
Mas também sabem conversar,
se divertir, se dar prazer.
Para as grandes decisões
são realizadas assembléias
em infinitos salões
repletos de mims.
Cada um tem sua vez,
tem a voz, diz o que pensa.
Às vezes, do fundo do salão,
ouve-se um grito:
“Paremos com essa palhaçada.
De volta com o Eu verdadeiro!”
Mas o presidente em exercício da assembléia responde:
“Eu verdadeiro se foi,
para nunca mais voltar...”
Um silêncio sepulcral
ecoa pelos infinitos salões,
e aos poucos a reunião recomeça
com suas grandes decisões.
Para alguns muito intrigante.
Para mim muito normal.
Por isso não se engane,
não me acuse de engodo,
pois vou logo te avisando:
eu sou falso, o tempo todo.
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Entrevista com Dapieve

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A EMBRANCO CONSEGUIU JUNTAR UMA DAS APOSTAS DA NOVA GERAÇÃO DE POETAS CARIOCAS COM UM PROFESSOR DE COMUNICAÇÃO DA PUC, ESCRITOR E CRONISTA DO JORNAL O GLOBO. JÁ RECONHECERAM OS PERSONAGENS? NÃO ESTÁ NEM A FIM DE FAZER UMA PESQUISA RÁPIDA NO GOOGLE? DESVENDAREMOS ENTÃO: LUCAS VIRIATO, EDITOR DO JORNAL PLÁSTICO BOLHA, AUTOR DO LIVRO MEMÓRIAS INDIANAS, PELA EDITORA IBIS LIBRIS. E ARTHUR DAPIEVE, QUE ACABA DE LANÇAR O LIVRO BLACK MUSIC, PELA EDITORA OBJETIVA. VALE MUITÍSSIMO A PENA CONFERIR O BATE-PAPO.
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Lucas Viriato – Pensando na EmBranco, no Plástico Bolha, nessas mídias alternativas que geralmente nascem no ambiente universitário, queria saber o que você pensa delas, que em outras épocas, na ditadura, por exemplo, eram tão comuns.

Arthur Dapieve – Há a desmobilização. É uma boa observação. Pode parecer paradoxal, mas algumas coisas eram mais fáceis na ditadura. Falar contra o poder, por exemplo. Porque era uma coisa distante, ele estava lá e você não tinha nada a ver com ele. Com a redemocratização fica mais difícil porque você tem participação. As pessoas que elegeram o Collor, elegeram o Lula e o Fernando Henrique. Você ajudou a fazer aquilo. E por parte da impressa, houve sim essa desmobilização. Eu me formei aqui na PUC em 85 e existiam muitas publicações alternativas vinculadas ou não ao departamento de Comunicação. Hoje você tem o Jornal da PUC, que é vinculado à universidade, mas fora isso tem pouca coisa. Mesmo com a vantagem da internet, que exclui o ônus do papel, que vocês sabem como é caro...

Lucas Viriato – Sim, sabemos!

Arthur Dapieve – Pois é, mesmo com a possibilidade do Blog (e outras ferramentas), não vemos articulação, um empenho em mobilizar. Apenas iniciativas individuais e isoladas. Eu acho que tem uma tendência na PUC, talvez mais do que em outras universidades, de o aluno achar que tudo é muito fácil. Sei que existe um pessoal que se esforça muito para estar aqui, mas o aluno padrão da PUC teve a vida um pouco fácil. Estudou em boas escolas, passou facilmente no vestibular e paga sem problemas a mensalidade. Aí tem uma atitude meio blasé que me irrita. Porque ensino não é uma relação mercantil do tipo você paga essa mensalidade durante x anos e eu te dou o “pacote Comunicação” ou o “kit Letras”. É uma troca. Até entendo que muitas vezes essa atitude é estimulada pelo lado dos professores...

Lucas Viriato – Você faz sua parte?

Arthur Dapieve – Eu faço minha parte: tô aqui todo dia, corrijo prova, estimulo trabalhos e não vejo resposta. Esse tipo de atitude condiz com essa pouca vontade nas mídias alternativas.

Lucas Viriato – Vamos falar de quem está começando na literatura hoje em dia. Com essa opção de mídia impressa, com alguns blogs de qualidade e revistas que revelam talentos, qual seria o caminho para quem está começando hoje? Eu tenho minha experiência pessoal.

Arthur Dapieve – Como foi sua experiência?

Lucas Viriato – Eu vejo que tem a questão de ser bom ou não, mas tem uma realidade que envolve mercado e dinheiro. Tem que ter dinheiro.

Arthur Dapieve – Tem até uma coisa que precede isso. As pessoas não estão escrevendo muito, não estão praticando. E escrever é prática. Escreve-se muito nas aulas o que se obriga, mas não é uma vontade. E isso se torna chato. Mas quem consegue praticar, consegue pagar ou atrair a atenção de alguém, acaba ganhando um destaque.

Lucas Viriato – Você escreve muito sobre música. Você gosta de ler poesia? Tem o hábito?

Arthur Dapieve – Eu sou um mau leitor. Eu não tenho o hábito. Na verdade eu tenho um gosto muito específico pra poesia, o que faz com que boa parte da produção fique fora do meu radar. Eu gosto de uma poesia usando prosa com dicção cotidiana, meio oral. Coisa que vejo na Alice Sant´Anna ( poetiza carioca, estudante de Letras da PUC). Um tipo de leitura que você chega na frente da platéia e lê. Se ficar mais no campo do experimento formal, não me toca tanto. Mas é claro que reconheço a importância. Poetas que gosto, como Ezra Pound e Stearns Eliot falam, você consegue ler aquilo. Pound dizia que sua experimentação tornava aquilo freqüentemente possível de entender. E a experimentação formal é responsável poruma larga parte da produção. Acho que a poesia mais falada me lembra mais a música e se adapta melhor a ela.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Nas ruínas da Igreja de Santo Agostinho

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Como formigas em seu formigueiro
os arqueólogos de Goa Velha
iam passando os sacos de areia
a pesada pá, os pedaços de pedra.

Em longuíssima fila
passavam o passado
de mão em mão.

Um turista passa saliva entre a fila
— ficam perdidos.
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Morte

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O velório foi no meio da rua. Montou-se uma tenda roxa em frente à casa. Os amigos chegavam para passar dois, três dias com a família do morto.

Durante a noite, uma banda de homens tocava tambores e cornetas a cada meia hora. Pela manhã, chegaram as mulheres para chorar copiosamente, a cada meia hora.

A experiência auditiva do velório entrava pela janela do quarto de hotel de onde, no fim de dois, três dias se poderia ver o cortejo levando o corpo para a cremação em um carro de madeira, deixando um rastro de flores nas ruas de Pondicherry.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Amor de armário

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Que frio estava fazendo! E aquelas portas de madeira prensada não ajudavam a manter o clima dentro do armário mais aconchegante. Ainda mais por se tratar de um armário de cozinha, onde tudo é azulejado e frio. E, cá pra nós, aquelas dobradiças já deveriam ter sido trocadas havia um bom tempo, a porta mal fechava... E isso só agravava em muito o frio que os produtos guardados no armário sentiam naquelas longas noites de outono — que estavam mais para noites de inverno.

Tudo começou após uma ida ao supermercado. Compras do mês. Ele sabia muito bem como era aquilo. De repente, a prateleira que estava quase vazia, privativa para aqueles produtos que não foram consumidos, se enchia de novidades. E ele sempre sobrava. Para falar a verdade, ele não sabia nem por que havia sido comprado. Ninguém naquela casa gostava de cereal de aveia, e isso era certeza.

Biscoitos diversos, fermento em pó, alguns produtos de compota, torradas, adoçante líquido, palitos; Nescau era na prateleira de baixo... Em meio àquele redemoinho de novos colegas, algo em especial havia lhe chamado a atenção: aquela pequenina caixinha vermelha de uvas passas. Como era graciosa aquela rapariga da embalagem! Cabelos morenos longos, pele alva, bem vestida. Muito nova para ele, pensou, e provavelmente deveria ser de consumo rápido. Se ficassem uma semana juntos naquela prateleira seria muito.

Em poucos minutos, todos os produtos foram guardados em seus devidos lugares para serem esquecidos ali até a hora que alguém sentisse fome ou a empregada resolvesse fazer um bolo.
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Naquela mesma noite, algo inusitado, ou nem tanto, sucedeu. Uma barata das grandes entrou junto com o frio pela porta mal fechada. A rapariga, como toda rapariga, se assustou. Ao perceber o nervosismo da donzela, ele, velho de armário, se pôs a acalmá-la:
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— Acalme-se. Isso acontece de vez em quando. Não tem com o que se preocupar. Você está bem fechada?
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— Estou... Quer dizer, acho que estou — respondeu aflita.
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— Estou certo de que deve estar. Produtos recém-chegados raramente vêm abertos — disse, tentando abrandar o nervosismo da moça.
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— Mas... Mas... Ela está em cima de mim...
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— Isso é porque você provavelmente deve ser docinha. Deve ter ficado junto de alguma amiga aberta no supermercado e pegou o cheiro. Acontece. Não há com o que se preocupar; logo, logo ela vai embora.
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Eles ficaram juntos durante toda a noite. Uma hora a barata se foi, mas eles continuaram um com o outro até adormecerem.
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No dia seguinte, acordaram bem cedo, devido à claridade que entrava pela abertura da porta.
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— É claro aqui — disse a moça com voz de quem acaba de acordar.
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— Claro pela manhã e frio à noite! Esta porta já devia ter sido trocada há muito tempo, mas aqui eles não dão muita atenção a esses detalhes.
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Depois de algum tempo, ela continuou:
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— Obrigada por ontem à noite. Você foi... muito gentil.
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— Que isso! Não fiz mais do que a minha obrigação. Eu sei como são essas coisas. Já estive numa prateleira de supermercado uma vez, mas isso faz muito tempo. Sei como é difícil esse período de adaptação. Durante a vida inteira, estamos acostumados a ver e interagir com produtos que são milimetricamente idênticos a nós. Mas aí, de repente, alguém nos tira de nossa prateleira, nos joga num carrinho. Daí pra frente é esteira, leitura ótica no nosso código de barra (constrangedor!), saco plástico, mala do carro sacudindo e, sem mais nem menos, caímos aqui, nesta prateleira fria, repleta de produtos que nunca imaginamos existir...
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— Repleta de baratas também!
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— Elas não costumam vir muito aqui — disse, sorrindo — mas, de qualquer forma, uma hora nos acostumamos com elas.
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— Tudo é tão traumático. Se não fosse você ontem à noite, eu não sei como teria agüentado. E eu não sei nem o seu nome.
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— Pode me chamar de Quaker. E você? Como se chama?
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— Bem, quando fui retirada de minha prateleira, falaram “Há quanto tempo não via essas passas!”. Acho que meu nome é Passas.
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— Não, “passas” é o que você é. Do mesmo jeito que eu sou um cereal de aveia. O que tem escrito na sua embalagem? – A forma como Quaker falava era culta e explicativa, como se fosse portador de grandes conhecimentos. E como isso encantava a insegura rapariga.
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— Deixe-me ver... Sunrise Raisains Secs, não sei se é assim que se pronuncia.
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— Um nome em francês! Encantador!
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Quaker e Sunrise continuaram conversando por muito tempo. Falavam sobre tudo: experiências pessoais, memórias do supermercado, a vida naquela prateleira. Quaker contava para ela os hábitos da família e juntos ficavam imaginando o que haveria nas outras prateleiras.
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Uma hora, já de noitinha, o já esperado aconteceu. Eles estavam juntos, da mesma forma como tinham sido guardados. Pela porta mal fechada, avistavam a janela da cozinha e, através dela, um magnífico céu estrelado. O frio também contribuía para uma atmosfera bem romântica.
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— Posso te perguntar uma coisa? — titubeou Sunrise com sua voz graciosa.
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— Claro.
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— Você acredita em reciclagem?
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— Não sei. Não costumo pensar muito nessas coisas.
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— Me acha boba? — perguntou, insegura.
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— De modo algum. Acho que o bobo devo ser eu, por ser tão objetivo e divagar pouco sobre a vida. Você acredita?
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— Acredito, sim. Eu acho que tudo não pode acabar assim, simplesmente indo pro lixo. Imagino que deve ter algo mais, algo além do que conhecemos.
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— É capaz. Não costumo pensar muito sobre isso...
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Do mesmo modo que ela se encantava com a sabedoria de Quaker, ele era fisgado pelo ar misterioso que ela exalava em suas palavras.
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— Sabe, ontem à noite você me chamou de docinha... — disse em tom apaixonado.
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— Chamei? Desculpe a indeli...
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— Não precisa se desculpar. (pequena pausa) — Eu gostei.
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E, daí em diante, eles se amaram como um casal em lua-de-mel. Ficaram se amando, olhando para as estrelas e, enquanto todos os produtos daquele armário sentiam um frio danado, eles reclamavam do calor. Ela pouco se importava com a idade avançada dele, até gostava de seus cabelos brancos. E ele nunca havia imaginado que conseguiria uma moça tão bela em toda sua vida.
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O tempo foi passando e, com ele, os dois consolidavam a relação. Mesmo aparentemente não tendo nada em comum, descobriram juntos que ambos eram ricos em fibras. Mas não era só isso que os unia. Os gostos musicais e artísticos também. Apesar de que o sonho da vida de Sunrise era se tornar uma latinha de sopa Campbell de Andy Warhol. Já Quaker não apreciava muito o artista, achava que ele os expunha demais e, assim, deturpava a condição de produto, inerente a todos eles. Mas não era Warhol o maior motivador das brigas do casal:
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— Você acha que eu não percebo como você olha pra Gina dos palitos??? — revelou um dia, em tom irritado.
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— Como? Ah, pelo amor de Deus! Deixe de ser ciumenta dessa maneira! Você enxerga situações que não existem!
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— Não existem?!? Quaker, eu te conheço. É só passar uma loirinha que você se assanha todo.
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— E você? Já reparou como aqueles “monges” do chocolate em pó te comem com os olhos? De monges não têm é nada. São uns safados, isso sim!
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— Ei, fale baixo. Não queremos criar um clima ruim na prateleira.
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Mas essas discussões eram passageiras e, na verdade, só adicionavam aquele ciúme normal, que apimenta e estimula os relacionamentos. E por falar em apimentado...
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— E aí, garotão? Não tem caloria pra noite toda não? — disse com um sorrisinho na boca.
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— Vou te mostrar quantas gramas têm aqui nessa embalagem!
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— Levadinho!
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A idade avançada de Quaker não atrapalhava em nada a vida sexual do casal. Ele era uma máquina e ela, insaciável.
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De vez em quando, alguém abria o armário e pegava um biscoito ou o adoçante. E foi numa dessas vezes que passou pela primeira vez na cabeça de Quaker o que ele sempre soube: aquele amor, a vida a dois, não iria durar para sempre. Ele sempre soube, desde a primeira vez que viu Sunrise, que uma hora ela seria consumida e ele ficaria ali, esquecido no armário, como sempre. Isso já havia ocorrido diversas vezes. Nenhum produto das compras dele ainda estava ali. Foram todos embora aos pouquinhos, ou comidos no almoço, ou num lanchinho rápido. E ele ali, resignado a permanecer esquecido na prateleira. Por vezes, pensava que tinha sido comprado por engano e que iria passar da validade ali, sem que ninguém o notasse.
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Como seria difícil suportar a solidão no armário sem ela! E depois que ela se fosse, também iriam todos os que conviveram com eles naquele armário. Chegariam novos produtos, que não fariam a menor idéia de quem era Sunrise e do que o amor deles tinha representado. Chegaria o dia em que só ele saberia que esse amor tinha existido, e — quem sabe — ele não tivesse existido só na sua cabeça, já que ninguém mais partilharia com ele essas memórias. Ficaria velho e perturbado.
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Chegará o dia — porque um dia todos os dias chegarão, até este — em que consertarão a dobradiça da porta. Ou — quem sabe — comprarão armários novos? E ele se lembrará dela, do frio que sentiam, das estrelas que viam através da janela. E sentirá um aperto forte no fundo do peito, uma vontade apenas de poder contar pra ela essa novidade. Chorará por horas, dias sem fim. Chegará até mesmo — veja só que besteira — a desejar nunca tê-la conhecido, para não ficar condenado a uma vida posterior de saudades e sofrimento. Mas, no fundo, sabia que só conhecera o que é a vida naquele dia de compras, quando avistou pela primeira vez aquela menina ainda sem nome. Aquela menina apavorada com a barata em cima dela.
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Só de imaginar isso tudo, Quaker emudecia.
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— O que houve, amor? Por que você está com essa cara?
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— Nada não, querida. Pensando... Será mesmo que existe aquela história de reciclagem? Será que no passado a gente não pode ter sido um produto só?
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— Às vezes, eu penso nisso. Quem sabe, no futuro, nós não nos tornaremos os dois uma só embalagem, guardando o mesmo produto?
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Pensar no futuro era fatal para Quaker. Todos os fantasmas da separação voltavam à sua cabeça e, ao seu rosto, voltava aquela expressão que tanto incomodava Sunrise.
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Quando ela ia perguntar novamente sobre o que ele estava pensando dentro daquele chapéu, foi interrompida. A porta se abriu e a empregada enfiou o rosto na frente da prateleira. A primeira a ir embora foi Sunrise, quando ainda estava pensando no que afligia o companheiro. Depois, foi a vez do pote de açúcar — mas este sabia que iria retornar. E, por fim, nosso querido Quaker, que também faria parte da receita!
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É, por essa ele não esperava. Nunca imaginou que chegaria o dia em que seria consumido. E ainda mais: não foi preciso se separar de Sunrise. Seriam consumidos juntos, tendo seu amor eternizado.

Ingredientes:
200g de flocos de aveia
200ml de água
Uma casca de laranja ou de limão
Duas maçãs descascadas e picadas
Uma colher de chá de açúcar
Uma colher de chá de erva-doce
50g de passas de uvas

Modo de preparo:
1. Cozinhe a aveia em água fervendo com uma casca de limão.
2. Junte as maçãs picadas, as passas de uva e a erva-doce.
3. Misture, adicione açúcar e introduza numa forma untada.
4. Asse em forno moderado durante 20 minutos.
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Esta é a história do amor entre Quaker e Sunrise, que tiveram o seu conteúdo unido numa deliciosa receita de bolo de aveia com passas. Suas embalagens foram jogadas juntas na lata de lixo. Se foram reciclados ou não, ninguém sabe. E, mesmo se alguém soubesse, não viria ao caso estragar os mistérios da vida.
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A boca

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Havia paz
antes da boca
se abrir. Então
primeiro veio o verbo
depois o nome
o pronome e o advérbio.
Agora, só
resta a esperança.
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Metempsicose

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Rajastão, terra de reis,
da ruralíssima vida.
Terra dos desertos onde
outrora pereci. Hoje,
cruzando-o neste carro,
léguas-luz, já me esqueci.
Em minha boca um catarro,
uma ânsia de cuspir.
Aos olhos cores espasmos
voam leves com o vento.
A lenda da vila rosa
sei de cor, não me esqueci
O corpo é que pede a busca
de uma jornada que ofusca
banhando-me com o que já vivi.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Faxina geral

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Quando Manuel chegou em casa naquela tarde viu que havia sido feito uma grande faxina em seu quarto. Lúcia, a empregada, trabalhava na casa de Manuel havia alguns anos e era excelente empregada. Passava sempre pelo seu quarto na sua ausência, alinhando e empilhando a bagunça, tirando a poeira, passando um pano úmido no chão.

Contudo, em determinados dias Manuel percebia que o seu quarto havia recebido uma atenção mais do que especial e este era um dia como aqueles. Nessas ocasiões, as mudanças iam além do simples alinhamento de papéis e arrumar de cama, seus pertences realmente mudavam de lugar, coisas novas sumiam enquanto coisas há muito dadas como desaparecidas reapareciam — e a limpeza, é claro, era completa.

Mas, naquele dia, Lúcia tinha exagerado. As paredes estavam incrivelmente mais brancas. Sim, as paredes do quarto de Manuel sempre foram brancas, mas naquele dia elas estavam muitíssimo mais brancas do que o normal, com um brilho único. Caminhando pelo lugar, Manuel pôde perceber que a rearrumação dos móveis lhe proporcionara uma compreensão inteiramente nova da arquitetura do quarto. Ganhou-se espaço!

Indo até a estante, ele pôde perceber que certamente Lúcia deveria ter se confundido um pouco no tirar e colocar dos livros na estante, pois os livros de cinema estavam no local errado e ele não conseguia encontrar seus livros favoritos. E para que Lúcia havia subido com a caixa de areia do gato para o quarto?

Tudo estava tão estranho, Manuel não conseguia encontrar suas coisas... A faxina mudou o odor do local, ele não se sentia mais em casa ali. Para que aquele exagero de faxina, para que tanta arrumação? Ah, e de que canto longínquo da casa ela teria tirado aquele violão? (Manuel não tocava violão).

Aquilo tudo precisava de uma explicação. Foi até a cozinha e viu Lúcia na pia, lavando a louça. Assim que ele ia perguntar de onde tirara o violão, teve as palavras interrompidas na garganta com o choque que tomou com o novo visual da empregada. Lúcia havia feito luzes, estava loira! Não só loira, como mais gorda, alguns centímetros mais baixa e — meu Deus, que creme de pele novo será esse? — branca! Em um espaço de tempo curtíssimo, Lúcia embranquecera; simplesmente da noite para o dia!
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Ele não conseguiu falar nada. Ela também não, parecia assustada. Olhando ao redor, Manuel percebeu que tudo estava mudado, aquela cozinha havia sido reformada! Mas aquilo tudo somente começou a deixar Manuel realmente angustiado quando seu gato rajado passou preto. Saiu correndo pela porta e pôde ver que a maçaneta fora mudada, e até mesmo as flores do jardim eram outras.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Izabé

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Mordeu as maçã
Fumou os baseado
Queimou os sutiã
Libertou os escravo
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Capa da MegaZine, d'O Globo

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O Formalista e o Hermeneuta

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(a partir do cordel:
Discussão do macumbeiro e o crente
de Gonçalo Ferreira da Silva)

A leitura de um texto
é uma coisa pessoal,
cada um tem sua própria
interpretação pra dar.
Aquela mesma história
que cá leio dessa forma,
podes ler de outra lá.

Formalista e Hermeneuta
não pensavam igualmente,
pois enquanto o Formalista
diz que entendeu direito
Hermeneuta, dedo em riste,
batendo forte no peito,
diz: “Eu sim que entendi!”

Porém, embora pensassem
de maneira diferente,
nunca tinham discutido
porque até o presente
não tinham, por sorte rara,
nenhuma oportunidade
prum encontro frente a frente.

Mas um dia o Formalista
rumo à academia
avistou o Hermeneuta
que seguia seu caminho,
caminhando ao seu estilo.
Já foram trocando insultos,
discutindo as leituras.

Onde os dois se encontraram
tinha uma praça bela
e um homem na barraca
vendia ali seu cordel.
Foram lendo um livrinho
para servir de exemplo
pro que iriam discutir.

“Mas que erro monstruoso!”
Foi dizendo o Formalista
“És um péssimo leitor,
pois o fio que te guia
não está no próprio texto
o que te dá o pretexto
para ler como quiser.”

Hermeneuta respondeu:
“Veja bem, seu ‘cientista’,
bem metido a lingüista,
leio como eu quiser.
quem vê só o próprio texto
esquece o que é mais simples:
o que ele quer dizer.”

Não era tarde da noite,
umas dez horas, e tantos,
começou a chegar gente,
vinda de todos os cantos,
outros vinham feito loucos
os que há pouco eram poucos
já não se sabia quantos.

A praça ficou lotada
de toda espécie de gente,
muitos pelo Hermeneuta,
outros pelo Formalista.
Os aplausos ao combate
serviam para o debate
ficar cada vez mais quente.

Hermeneuta foi quem disse:
“Olha, você quer saber?
Da leitura você tira
toda chance de prazer
O que diz é por um triz:
‘impossível conhecer!’
Lê tão perto que não vê.”

E o Formalista falou:
“Você não diz o que quer,
mas o que a língua permite.
Não precisa ficar triste...
Também, ler como quiser,
já é coisa de um místico,
alguém com superpoder.

Pode chamar o deus Hermes,
ou alguma entidade.
Mas, não espere de pé
pra não doer a lombar.
Sua leitura é social,
já o encaixe desse texto,
isso nunca vai mudar!”

E o Hermeneuta falou:
“Um Deus não é pra ser chamado
Pra o nosso bate-boca.
O sentido encontrado,
o que o autor desejou,
é o mesmo, tanto hoje
como há muito tempo atrás.”

Formalista respondeu:
“Veja, enquanto a sua
linda interpretação
busca um sentido oculto,
eu olho a composição.
Vê se entende, criatura!
Não enxerga a estrutura?”

“Sim, enxergo a estrutura
muito além da própria forma.
Acho que tu não devias
fazer essa vista grossa
à fenomenologia.
Tenha ao menos a decência
de não negar a essência!”

O outro seguiu a glosa:
“Muito além de duvidosa,
sua leitura é perigosa.
Muito sangue já correu
devido ao que se escreveu.
Sua visão tradicional
está longe da atual.

Texto e realidade
já nos fazem a bondade
de entregar numa bandeja
qualquer coisa que nos seja
preciso para entendê-los.
Não tem o que complicar,
nada atrás pra desvendar...”

E Hermeneuta dispara:
“Eu fico me perguntando,
se você não lê jornal?
Crê que o que está se falando
não se liga ao real?
Se recebe um bilhete,
confunde com um enfeite?

Faço ainda nova crítica:
Toda a tua estilística
Não passa de niilismo!”
E um espectador quis
Hermeneuta agredir
A turma do “deixa disso”
Fez o intruso sair.

A discussão nesta altura
já parecia uma briga,
ia ofensa, vinha vem ofensa
e no meio da intriga
que parecia arruaça
a platéia achava graça
de dar cãibra na barriga.

Formalista prosseguiu:
“Texto só fala de texto!
O que leste foi mentira,
e ela está em ti.
Não tem o que insistir.
Tu és mais que junguiano,
Verdadeiro leviano!”

“Sua análise se esgota
nela mesma. Ela é, pois,
um simulacro da obra;
só formaliza uma coisa
que no texto é informal.
Se crês na totalidade,
é por pura vaidade!”

Eles tinham energia
na garganta como poucos
dando socos no espaço,
já completamente roucos.
Uns riam pelo que viam,
outros riam dos que riam,
era um festival de loucos.

Ninguém mais se entendia
no meio da discussão.
Semiólogo deixou
o cordel cair no chão.
Foram partindo pra briga,
e não deram a menor bola
nem pra essência nem pra forma.

Tanto soco, pontapé,
que, quando se viu, até
Formalista interpretou e
nexo oculto revelou.
Parecia possuído,
tomado por um espírito.
Vejam só, mas quem diria...

Hermeneuta em outra mão,
tamanha a dificuldade
de sustentar sua visão,
foi partindo pra maldade,
saiu dando safanão;
esquecendo o que aprendeu
com os livros que já leu.

As pessoas ao redor
não sabiam o que fazer.
Separar aqueles dois,
ou deixar couro comer?
Não podia ser possível,
mas será que aquela era a
única chance de síntese?

Quando o guia incorporado no
Formalista foi embora
novamente pro outro lado,
todo o pessoal presente,
entre charadas e risos,
muitas risadas festivas,
mangavam do formalista.

E também o Hermeneuta
não escapou à zoação.
Com a cara bem marrenta,
seguiu sua direção,
saindo da discussão.
Fez o mesmo o formalista,
Prosseguindo seu caminho.

Hermeneuta em sua casa
lia o poema da briga
dando a vitória por certa.
De outro lado o Formalista,
na sua academia,
também lia a epopéia
certo que tinha vencido.
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A dançarina indiana

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Os movimentos de Minu
no centro do salão
não cabiam nas palavras.

As palavras são paradas
não batem os pés no chão
não movem a cabeça para cá e para lá
não têm sinos nos tornozelos
nem uma bola vermelha nas mãos
nem brincos que balançam
nem uma gota no centro da testa
e nem a verdade de um só mudrá seu.

Onde vai a mão
vai o olhar
vai a alma
— devolvendo a calma
que a palavra nos roubou.

Chama

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Vida vela derretendo
Cera pingando as horas
E assim seguirá sendo
Mesmo quando oras
Para vida ser isqueiro
Cujo fluido se renova
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Débora e Marcos

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Débora está à procura do amor de sua vida. Ela é a típica pessoa organizada que faz compras mensalmente e leva ao supermercado a lista de compras impressa no computador.
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Marcos também procura a mulher ideal, mas não vai muito ao supermercado. Ele freqüenta mais as lojas de conveniências de postos de gasolina e farmácias no interior de shopping centers. Porém, ao ver o anúncio na TV do mais novo cereal matinal, resolveu se locomover até o supermercado para adquirir a novidade.
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Ele estacionou no B2. Ela preferiu não confiar no bom tempo e estacionou nas vagas do subsolo.
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Débora, experiente, tem seu próprio roteiro de compras: vai direto às seções desejadas, sem nunca dar um passo além do necessário. Marcos, mais perdido do que nunca, não sabe diferenciar a seção de jardinagem da seção dos refrigerados.
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Foi então que o imprevisível aconteceu, bem na seção de material de limpeza. Débora estava procurando sua marca de amaciante, quando Marcos, vindo do vão central, entrou no mesmo corredor. Ele andava com pressa, cansado daquele labirinto. Ela procurava com atenção. E a cada minuto os dois se aproximavam mais.
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Naquele instante de segundo os planetas de uma galáxia desconhecida se alinharam, sete mil pessoas falaram a palavra “sim” ao mesmo tempo, um urso panda nasceu em um laboratório na China e Marcos passou por traz de Débora quando esta se abaixou para pegar o amaciante. Os dois ficaram a uma distância de apenas 75 cm um do outro e, depois, nunca mais se viram. Débora morreu em um acidente de carro 27 anos depois, e Marcos morreu de câncer aos 83 anos, sem nunca saberem que tinham nascido um para o outro.
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Talvez se os supermercados não botassem as marcas mais conhecidas nas prateleiras mais baixas, tudo tivesse sido diferente. Ou, então, se o amaciante tivesse escorregado das mãos de Débora, acarretando assim um encontro. Mas Débora malhava e tinha pulso firme. Ainda se o chão estivesse úmido e Marcos tivesse escorregado. Mas o ar condicionado estava forte e secara rapidamente a umidade do piso recém lavado. Porém, não é de possibilidades que a vida é feita.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A arte da palavra

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Eles poderiam apenas curtir seus anos de faculdade entre baladas e saraus-bicho-grilo. Ou ainda curtir o seu pontifício universitário campus bucólico. Poderiam bancar os intelectuais que filosofavam sobre tudo e todos sem sair do lugar. Ou ficariam fumando maconha contra o capitalismo selvagem que oprime! Seja, qual for o estereótipo selecionado, um grupo de estudantes de Letras resolveu sair um pouco da sala de aula e expor sua produção pelas ruas.

Já tinham os textos, e logo produziriam mais. Mandar para uma editora, tentar um livro é algo complicado no acanhado mercado editorial brasileiro. Então, por que não criar uma “vitrine” para esses trabalhos? É claro que a primeira coisa que a gente pensa é “Ah! Faz um blog e manda uns spams pros amigos!”. Mas, eles quiseram algo diferente: um jornal! Um passo atrás? Pelo contrário. O resultado? O jornal literário Plástico Bolha.

Toda essa movimentação já tem três anos e o jornal que começou circulando apenas no Rio de Janeiro, hoje é distribuído em Belo Horizonte e, em outubro, chega a Vitória. Ao todo, o Plástico Bolha teve 23 edições e é da vigésima quarta em diante que os capixabas vão poder acompanhar e colaborar com o jornal. E quem ficar interessado nos números anteriores, Lucas Viriato, um dos editores do jornal, avisa: todas elas podem ser acessadas pela internet.

Vamos conhecer por etapas o Plástico Bolha. Se atualmente a internet é a grande vitrine, por que eles voltaram para o papel? “Pode até parecer uma idéia antiquada, mas queríamos fazer em tablóide e criar uma relação mais próxima com o leitor. A internet é um meio impessoal. No papel, a pessoa leva o jornal para onde quiser, dobra e põe na bolsa, ou ainda dá para outra pessoa ler”, explica Viriato. Mas, eles sabem que com a internet atingem o potencial de público é maior. Daí surgiu a idéia de montar um site do jornal.

“A princípio, o mesmo conteúdo que sair no jornal impresso vai para o site e também as edições passadas. A identidade visual será diferente, mas quem quiser poderá baixar o arquivo da versão impressa. Depois a idéia é colocar coisas diferentes”, revela o editor. De acordo com Viriato, algumas sessões recebem mais textos do que o espaço reservado. Com o site, os textos que ficaram de fora também são divulgados.

Mesmo com as restrições que o formato impõe, o Plástico Bolha já publicou mais de 500 textos de aproximadamente 250 autores. Agora eles aguardam a colaborações dos capixabas. “Em Minas, começamos a receber tantos textos que criamos uma coluna só para os mineiros. Esperamos que isso aconteça no Espírito Santo”, instiga Viriato. É claro que não basta mandar milhões de textos, tem que ter qualidade.

O processo de seleção é rigoroso e tenta ser idôneo, coisa que jornais ditos mais sérios não fazem. “A gente recebe os textos e uma equipe tira a autoria e passa para as pessoas que selecionam. Ninguém sabe Quem é o autor, a gente só descobre depois que o texto é aprovado. É lógico que a gente convida alguns amigos, mas os demais entram pelo mérito mesmo”, detalha Lucas Viriato.
A equipe do Plástico Bolha é basicamente formada por 20 estudantes (ou ex-) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Apesar disso não há vinculo institucional com a universidade, “apenas emocional”. Para se manter o jornal ainda é financiado em parte pela equipe. A outra parte vem de pequenos anunciantes. Somando essas duas rendas, eles conseguem uma tiragem de 10 mil exemplares.

E como esse jornal veio parar em Vitória? “Com a distribuição em Belo Horizonte, queríamos divulgar mais o jornal em uma terceira capital. Também era intenção tirar um possível bairrismo dele e sair um pouco do eixo Rio-São Paulo. Além disso, ir para São Paulo era inviável por envolve um tiragem bem maior e logo mais grana. Pensamos em Vitória, até porque nas capitais menores a resposta é maior”, afirma Viriato. Eles ainda pretendem distribuir o Plástico Bolha em outras capitais menores, como Brasília, e com isso forma uma rede de comunicação, poesia e literatura. “Quem sabe também ganhar grana. É meio ideológico”, brinca.

Plástico Bolha apresentado, a primeira coisa agora é correr atrás da próxima edição que, em Vitória, será disponibilizada em vinte pontos de distribuição, entre faculdades, livrarias, teatros, cafés, galerias de arte e sebos. Quem se animar e quiser contribuir, Lucas Viriato enfatiza “é só mandar o texto para a gente que vamos avaliar. O e-mail é jornalplasticobolha@gmail.com”. E quem pensa que é só um pedaço de papel se engana. Vários autores que publicaram textos no jornal lançaram ou estão com livros no forno para sair. “Eu mesmo sou um deles”, afirma Viriato. Afinal, se está na vitrine alguém vai ver e, quem sabe, levar.
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Por Leonardo Viso para o site Século Diário, de Vitória (ES)
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A lição de quem martela

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Esculpir a pedra
é tirar da pedra
o que não é pedra.
É lixar a pedra,
é causar a perda.

A desnatureza
que a arte gera
no bloco de pedra,
graças à destreza
e alguns martelos,
é muito mais bela
do que era a pedra
sem aquela quebra.

Um vapor de pedra
voa com o vento,
atinge pedestres,
pousa nos alvéolos


Que venham as perdas
tornando nós mesmos
ainda mais belos:
seja a vida pedra
(uma fina pele
que nos desprotege)
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Duas mortes

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A mulher que gostava de números redondos
Se matou no dia de seu aniversário

O homem que tinha medo de altura
Se enforcou no primeiro andar

O menino que gostava de viver
Não morreu — está vivo
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Galanteio

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Caxemira,
Caxemira,
és tão linda,
que conquistas.

Por orgulho
te disputam
o hindu e o
muçulmano.

Dominando
bem galantes
travam lutas
mano a mano.

E ainda,
bem formosos,
vêm com essa
radiantes:

Duas rosas
esquisitas
bem no estilo
de Hiroshima.
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Efeito Kristeva

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O centro move-se com o sujeito,
Não há verdade absoluta.
Um dia, as formas de vida unicelulares
Também decidiram se juntar em algo maior.

Alguém ficou se perguntando
Se elas perderam suas identidades?
Se sentiram vertigem?
Se escreveriam (se pudessem)
Em busca do tempo de bactéria perdido?

A intertextualidade
É mais do que a aceitação dos limites humanos
E o fim de suas pretensões metafísicas,
Ela é a chave para uma nova consciência,
Uma nova metafísica.

Uma metafísica que não nos é concedida,
Da mesma forma como não é concedido
Toda esta reflexão às nossas células.
Daí a sensação de medo,
De perda de identidade.

O bolo de chocolate delicioso
Foi guardado em cima da geladeira,
E não há banquinho,
Não há banquinho...
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A ascensorista

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A primeira vez que vi Teresa
Foi hoje pela manhã quando desci de elevador

Quando vi Teresa de novo
Foi hoje pela tarde quando subi de elevador

Da terceira vez não vi mais nada
Desci de escada
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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Índia em fragmentos poéticos

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Ir à Índia e mergulhar numa cultura tão sofisticada e diversa da ocidental pode mudar a vida de uma pessoa – a ponto de desencadear um processo de escrita que já gerou dois livros. Foi isso o que aconteceu com Lucas Viriato de Medeiros, aluno do Departamento de Letras da PUC-Rio, que acaba de lançar Retorno ao Oriente, uma espécie de diário de viagem em forma poética que inclui crônicas, textos em prosa e até piadas.
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Em 2006, Lucas embarcou em sua primeira aventura pela Índia, a convite de sua professora de yoga. O único contato dele com a cultura daquele país tinha se dado por meio do Movimento Hare Krishna, fundado no Ocidente pelo mestre espiritual indiano Srila Prabhupada, na década de 1960. Essa experiência resultou no livro Memórias Indianas, uma coletânea de fragmentos poéticos que intercala jogos de linguagem com passagens mais narrativas.
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– Na primeira viagem, passei a maior parte em Pondicherry, uma cidade do sul da Índia que lembra a Riviera francesa. Lá, tive uma convivência muito real, diferente da visão de turista tradicional. Ir à Índia é sair completamente do nosso mundo eurocêntrico. Gosto muito do que choca e gera estranhamento cultural, diz o escritor.
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Também escrito em fragmentos, Retorno ao Oriente é o resultado da segunda viagem de Lucas, dessa vez ao norte da Índia. “Este livro surgiu assim, um pouco como pretexto, um pouco como desculpa ou contrapartida para a nova viagem”, conta o autor. Na cultura indiana, o número 108 tem um significado relevante, que remete à transcendência. O livro consiste em 108 pequenos flashes que, segundo ele, “se deslocam entre a apreensão poética da realidade e o exercício da imaginação”. Para Paulo Henriques Britto, professor do Departamento de Letras, esse é o aspecto mais interessante da obra:
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– A concepção do livro é muito inteligente. A Índia não é um país, é um mundo. Por isso, ao invés de fazer um texto unificado, ele fez vários fragmentos. Esse caráter do texto tem tudo a ver com o pluralismo indiano, afirma.
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No prefácio, a professora Marília Rothier Cardoso destaca como a escrita de Lucas desperta a imaginação. “Este livro exige atenção, raciocínio e disponibilidade para o fascínio e a alucinação. Nenhum instante de tédio nessa viagem pelos roteiros da escrita”, diz.
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Lucas também é editor do Plástico Bolha, um jornal que nasceu em 2006, com quatro páginas, e hoje circula com dezesseis páginas, com uma tiragem de treze mil exemplares. O Plástico Bolha já publicou textos de cerca de 250 autores, muitos deles estreantes, e, agora, também está presente na internet, no site http://www.jornalplasticobolha.com.br/, e em várias cidades do estado do Rio de Janeiro, além de em Belo Horizonte, Vitória, Vila Velha, Porto Velho, Salvador e Brasília.
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por Carlos Heitor Monteiro, Jornal da PUC, Dezembro de 2008.
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Quartetos para Sá-Carneiro

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A moldura do espelho é ouro
Quadriculando as reticências...
Projeção de mim para o outro —
Dispersão ancestral de retinas.

Taciturno trovador a pensar
Perdido nos salões de si mesmo.
Pilastra incapaz de sustentar
Um sentido perdido ao esmo.

Desconstrução mobiliada do eu,
Nova decoração de Portugal.
Finda a catábasis d’Orfeu,
Bebeu veneno à provençal.
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Continho do João com sono

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Era tarde da noite e João dormia pesado.
Toca o telefone. Após uns toques, ele atende:
— Alô? — diz com voz de sono.
— João Smitch? — Pergunta uma voz soturna.
— É ele.
— Nós acabamos de colocar uma bomba no prédio. Ou você transfere 500 mil dólares para a nossa conta, ou explodiremos o quarteirão.
Silêncio.
— Não há problema que não possa esperar até amanhã. Boa noite.
— Você não está enten...
Ele desliga o telefone e volta a dormir. Como um anjo.
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Pranto

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Nada machuca tanto
(e gera mais espanto)
do que o curto corte
da fina folha em branco.
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Homens do deserto

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Esses homens do deserto
vêm puxados a camelo
com seus panos coloridos
envolvidos nos cabelos.
Retorno de tempos idos
muitos anos, isso é certo,
têm os traços bem vividos
esses homens do deserto.

Esses homens do deserto
domadores de elefantes
têm os olhos bem abertos
como bons negociantes.
Venha logo, meu amigo,
venha ver o quanto antes
esses homens do deserto
domadores de elefantes.

Esses homens do deserto
com seu mármore esculpido
construíram os castelos
que encantaram o mundo inteiro.
Contemplaram as montanhas
com seus templos de marfim,
e hoje vendem por barganhas
belos cortes de cetim.

Esses homens do deserto,
esse clima quente e seco
de um país largado a ermo.
Eu preciso ouvir de perto
a canção que não entendo
para ver se estou desperto
ou se os homens que enxergo
são miragens do deserto.
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Desejo antigo

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Vejo às margens deste Tejo,
vindo a flutuar, senil,
a lembrança de um beijo
que jamais aconteceu.

Eis que uma gaivota branca
chegada não sei de onde
com fino bico a apanha –
sai voando para longe.

Ei! Devolva-me, gaivota!
Mesmo que não seja jovem,
quero essa minha memória.

Pois dentro de todo homem
há sempre lugar na história
Para aquilo que não houve.

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Distância

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Os textos de botânica
................................não cheiram como as flores.

A receita do pudim
.............................não tem calda e nem sabor.

O retrato da vovó
..........................não reclama estar com dores.

Os meus filmes de viagem
.......................................não me tiram de onde estou.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Três construtos

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Existe mais verdade
no rastro da cobra
que rasteja no chão
escrevendo na areia
do que nessas palavras tolas
mera observação, por certo besteira.

Existe mais verdade
em qualquer vôo de pássaro,
na invisível movimentação de ar
escrita com a ponta das penas,
do que nessas palavras fugazes
tentativa de contemplação digna de pena.

Porém, não fossem essas palavras hábeis,
zumbindo entre o céu e o chão,
nunca que estaríamos aptos
para ver verdades alheias
a escrita invisível do pássaro,
o rastro da cobra na areia.
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Aurora

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5:40
Os primeiros raios de luz
entram pelas frestas mal fechadas
apagando a rubra constelação de standbys.

6:22
Do enorme silêncio
ouve-se um barulho junto à porta:
o jornal cacarejando o mundo.

7:00
Sucessão de apitos
concerto de passos ecoando pelas estruturas
um cachorro que não para de latir.
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Jardins

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I

A embromação das bromélias
cintila. Senti-la é coisa de
inseto. Exceto quando estamos
juntos, no junco... Fujo, urge
algo em mim, um ungüento!
Sim, por fim o estorvo, o retorno
às bromélias, a eterna embromação
das bromélias que cintila.


II

O delírio dos lírios:
Lançar folhas como
lanças verdes que vertem
laterais, perfilam o tempo-
espaço fincando o compasso
da ferida de onde se levanta
seu propósito (uma leucócita
flor branca


III

Não fosse o querer tudo
ao mesmo tempo
das abelhas que voam
de flor em flor
talvez não houvesse
a primavera
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Pôr do sol na Caxemira

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Aquele pôr do sol
maravilhoso
revelou-se,
colorindo
nuvens,
caindo sobre casas e morros
e, não
satisfeito,
ainda repetia
o efeito, multiplicando-se
ondulado nas águas do Lago Naguí.
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