quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A dançarina indiana

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Os movimentos de Minu
no centro do salão
não cabiam nas palavras.

As palavras são paradas
não batem os pés no chão
não movem a cabeça para cá e para lá
não têm sinos nos tornozelos
nem uma bola vermelha nas mãos
nem brincos que balançam
nem uma gota no centro da testa
e nem a verdade de um só mudrá seu.

Onde vai a mão
vai o olhar
vai a alma
— devolvendo a calma
que a palavra nos roubou.

Chama

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Vida vela derretendo
Cera pingando as horas
E assim seguirá sendo
Mesmo quando oras
Para vida ser isqueiro
Cujo fluido se renova
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Débora e Marcos

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Débora está à procura do amor de sua vida. Ela é a típica pessoa organizada que faz compras mensalmente e leva ao supermercado a lista de compras impressa no computador.
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Marcos também procura a mulher ideal, mas não vai muito ao supermercado. Ele freqüenta mais as lojas de conveniências de postos de gasolina e farmácias no interior de shopping centers. Porém, ao ver o anúncio na TV do mais novo cereal matinal, resolveu se locomover até o supermercado para adquirir a novidade.
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Ele estacionou no B2. Ela preferiu não confiar no bom tempo e estacionou nas vagas do subsolo.
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Débora, experiente, tem seu próprio roteiro de compras: vai direto às seções desejadas, sem nunca dar um passo além do necessário. Marcos, mais perdido do que nunca, não sabe diferenciar a seção de jardinagem da seção dos refrigerados.
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Foi então que o imprevisível aconteceu, bem na seção de material de limpeza. Débora estava procurando sua marca de amaciante, quando Marcos, vindo do vão central, entrou no mesmo corredor. Ele andava com pressa, cansado daquele labirinto. Ela procurava com atenção. E a cada minuto os dois se aproximavam mais.
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Naquele instante de segundo os planetas de uma galáxia desconhecida se alinharam, sete mil pessoas falaram a palavra “sim” ao mesmo tempo, um urso panda nasceu em um laboratório na China e Marcos passou por traz de Débora quando esta se abaixou para pegar o amaciante. Os dois ficaram a uma distância de apenas 75 cm um do outro e, depois, nunca mais se viram. Débora morreu em um acidente de carro 27 anos depois, e Marcos morreu de câncer aos 83 anos, sem nunca saberem que tinham nascido um para o outro.
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Talvez se os supermercados não botassem as marcas mais conhecidas nas prateleiras mais baixas, tudo tivesse sido diferente. Ou, então, se o amaciante tivesse escorregado das mãos de Débora, acarretando assim um encontro. Mas Débora malhava e tinha pulso firme. Ainda se o chão estivesse úmido e Marcos tivesse escorregado. Mas o ar condicionado estava forte e secara rapidamente a umidade do piso recém lavado. Porém, não é de possibilidades que a vida é feita.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A arte da palavra

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Eles poderiam apenas curtir seus anos de faculdade entre baladas e saraus-bicho-grilo. Ou ainda curtir o seu pontifício universitário campus bucólico. Poderiam bancar os intelectuais que filosofavam sobre tudo e todos sem sair do lugar. Ou ficariam fumando maconha contra o capitalismo selvagem que oprime! Seja, qual for o estereótipo selecionado, um grupo de estudantes de Letras resolveu sair um pouco da sala de aula e expor sua produção pelas ruas.

Já tinham os textos, e logo produziriam mais. Mandar para uma editora, tentar um livro é algo complicado no acanhado mercado editorial brasileiro. Então, por que não criar uma “vitrine” para esses trabalhos? É claro que a primeira coisa que a gente pensa é “Ah! Faz um blog e manda uns spams pros amigos!”. Mas, eles quiseram algo diferente: um jornal! Um passo atrás? Pelo contrário. O resultado? O jornal literário Plástico Bolha.

Toda essa movimentação já tem três anos e o jornal que começou circulando apenas no Rio de Janeiro, hoje é distribuído em Belo Horizonte e, em outubro, chega a Vitória. Ao todo, o Plástico Bolha teve 23 edições e é da vigésima quarta em diante que os capixabas vão poder acompanhar e colaborar com o jornal. E quem ficar interessado nos números anteriores, Lucas Viriato, um dos editores do jornal, avisa: todas elas podem ser acessadas pela internet.

Vamos conhecer por etapas o Plástico Bolha. Se atualmente a internet é a grande vitrine, por que eles voltaram para o papel? “Pode até parecer uma idéia antiquada, mas queríamos fazer em tablóide e criar uma relação mais próxima com o leitor. A internet é um meio impessoal. No papel, a pessoa leva o jornal para onde quiser, dobra e põe na bolsa, ou ainda dá para outra pessoa ler”, explica Viriato. Mas, eles sabem que com a internet atingem o potencial de público é maior. Daí surgiu a idéia de montar um site do jornal.

“A princípio, o mesmo conteúdo que sair no jornal impresso vai para o site e também as edições passadas. A identidade visual será diferente, mas quem quiser poderá baixar o arquivo da versão impressa. Depois a idéia é colocar coisas diferentes”, revela o editor. De acordo com Viriato, algumas sessões recebem mais textos do que o espaço reservado. Com o site, os textos que ficaram de fora também são divulgados.

Mesmo com as restrições que o formato impõe, o Plástico Bolha já publicou mais de 500 textos de aproximadamente 250 autores. Agora eles aguardam a colaborações dos capixabas. “Em Minas, começamos a receber tantos textos que criamos uma coluna só para os mineiros. Esperamos que isso aconteça no Espírito Santo”, instiga Viriato. É claro que não basta mandar milhões de textos, tem que ter qualidade.

O processo de seleção é rigoroso e tenta ser idôneo, coisa que jornais ditos mais sérios não fazem. “A gente recebe os textos e uma equipe tira a autoria e passa para as pessoas que selecionam. Ninguém sabe Quem é o autor, a gente só descobre depois que o texto é aprovado. É lógico que a gente convida alguns amigos, mas os demais entram pelo mérito mesmo”, detalha Lucas Viriato.
A equipe do Plástico Bolha é basicamente formada por 20 estudantes (ou ex-) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Apesar disso não há vinculo institucional com a universidade, “apenas emocional”. Para se manter o jornal ainda é financiado em parte pela equipe. A outra parte vem de pequenos anunciantes. Somando essas duas rendas, eles conseguem uma tiragem de 10 mil exemplares.

E como esse jornal veio parar em Vitória? “Com a distribuição em Belo Horizonte, queríamos divulgar mais o jornal em uma terceira capital. Também era intenção tirar um possível bairrismo dele e sair um pouco do eixo Rio-São Paulo. Além disso, ir para São Paulo era inviável por envolve um tiragem bem maior e logo mais grana. Pensamos em Vitória, até porque nas capitais menores a resposta é maior”, afirma Viriato. Eles ainda pretendem distribuir o Plástico Bolha em outras capitais menores, como Brasília, e com isso forma uma rede de comunicação, poesia e literatura. “Quem sabe também ganhar grana. É meio ideológico”, brinca.

Plástico Bolha apresentado, a primeira coisa agora é correr atrás da próxima edição que, em Vitória, será disponibilizada em vinte pontos de distribuição, entre faculdades, livrarias, teatros, cafés, galerias de arte e sebos. Quem se animar e quiser contribuir, Lucas Viriato enfatiza “é só mandar o texto para a gente que vamos avaliar. O e-mail é jornalplasticobolha@gmail.com”. E quem pensa que é só um pedaço de papel se engana. Vários autores que publicaram textos no jornal lançaram ou estão com livros no forno para sair. “Eu mesmo sou um deles”, afirma Viriato. Afinal, se está na vitrine alguém vai ver e, quem sabe, levar.
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Por Leonardo Viso para o site Século Diário, de Vitória (ES)
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A lição de quem martela

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Esculpir a pedra
é tirar da pedra
o que não é pedra.
É lixar a pedra,
é causar a perda.

A desnatureza
que a arte gera
no bloco de pedra,
graças à destreza
e alguns martelos,
é muito mais bela
do que era a pedra
sem aquela quebra.

Um vapor de pedra
voa com o vento,
atinge pedestres,
pousa nos alvéolos


Que venham as perdas
tornando nós mesmos
ainda mais belos:
seja a vida pedra
(uma fina pele
que nos desprotege)
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Duas mortes

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A mulher que gostava de números redondos
Se matou no dia de seu aniversário

O homem que tinha medo de altura
Se enforcou no primeiro andar

O menino que gostava de viver
Não morreu — está vivo
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Galanteio

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Caxemira,
Caxemira,
és tão linda,
que conquistas.

Por orgulho
te disputam
o hindu e o
muçulmano.

Dominando
bem galantes
travam lutas
mano a mano.

E ainda,
bem formosos,
vêm com essa
radiantes:

Duas rosas
esquisitas
bem no estilo
de Hiroshima.
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Efeito Kristeva

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O centro move-se com o sujeito,
Não há verdade absoluta.
Um dia, as formas de vida unicelulares
Também decidiram se juntar em algo maior.

Alguém ficou se perguntando
Se elas perderam suas identidades?
Se sentiram vertigem?
Se escreveriam (se pudessem)
Em busca do tempo de bactéria perdido?

A intertextualidade
É mais do que a aceitação dos limites humanos
E o fim de suas pretensões metafísicas,
Ela é a chave para uma nova consciência,
Uma nova metafísica.

Uma metafísica que não nos é concedida,
Da mesma forma como não é concedido
Toda esta reflexão às nossas células.
Daí a sensação de medo,
De perda de identidade.

O bolo de chocolate delicioso
Foi guardado em cima da geladeira,
E não há banquinho,
Não há banquinho...
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A ascensorista

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A primeira vez que vi Teresa
Foi hoje pela manhã quando desci de elevador

Quando vi Teresa de novo
Foi hoje pela tarde quando subi de elevador

Da terceira vez não vi mais nada
Desci de escada
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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Índia em fragmentos poéticos

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Ir à Índia e mergulhar numa cultura tão sofisticada e diversa da ocidental pode mudar a vida de uma pessoa – a ponto de desencadear um processo de escrita que já gerou dois livros. Foi isso o que aconteceu com Lucas Viriato de Medeiros, aluno do Departamento de Letras da PUC-Rio, que acaba de lançar Retorno ao Oriente, uma espécie de diário de viagem em forma poética que inclui crônicas, textos em prosa e até piadas.
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Em 2006, Lucas embarcou em sua primeira aventura pela Índia, a convite de sua professora de yoga. O único contato dele com a cultura daquele país tinha se dado por meio do Movimento Hare Krishna, fundado no Ocidente pelo mestre espiritual indiano Srila Prabhupada, na década de 1960. Essa experiência resultou no livro Memórias Indianas, uma coletânea de fragmentos poéticos que intercala jogos de linguagem com passagens mais narrativas.
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– Na primeira viagem, passei a maior parte em Pondicherry, uma cidade do sul da Índia que lembra a Riviera francesa. Lá, tive uma convivência muito real, diferente da visão de turista tradicional. Ir à Índia é sair completamente do nosso mundo eurocêntrico. Gosto muito do que choca e gera estranhamento cultural, diz o escritor.
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Também escrito em fragmentos, Retorno ao Oriente é o resultado da segunda viagem de Lucas, dessa vez ao norte da Índia. “Este livro surgiu assim, um pouco como pretexto, um pouco como desculpa ou contrapartida para a nova viagem”, conta o autor. Na cultura indiana, o número 108 tem um significado relevante, que remete à transcendência. O livro consiste em 108 pequenos flashes que, segundo ele, “se deslocam entre a apreensão poética da realidade e o exercício da imaginação”. Para Paulo Henriques Britto, professor do Departamento de Letras, esse é o aspecto mais interessante da obra:
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– A concepção do livro é muito inteligente. A Índia não é um país, é um mundo. Por isso, ao invés de fazer um texto unificado, ele fez vários fragmentos. Esse caráter do texto tem tudo a ver com o pluralismo indiano, afirma.
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No prefácio, a professora Marília Rothier Cardoso destaca como a escrita de Lucas desperta a imaginação. “Este livro exige atenção, raciocínio e disponibilidade para o fascínio e a alucinação. Nenhum instante de tédio nessa viagem pelos roteiros da escrita”, diz.
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Lucas também é editor do Plástico Bolha, um jornal que nasceu em 2006, com quatro páginas, e hoje circula com dezesseis páginas, com uma tiragem de treze mil exemplares. O Plástico Bolha já publicou textos de cerca de 250 autores, muitos deles estreantes, e, agora, também está presente na internet, no site http://www.jornalplasticobolha.com.br/, e em várias cidades do estado do Rio de Janeiro, além de em Belo Horizonte, Vitória, Vila Velha, Porto Velho, Salvador e Brasília.
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por Carlos Heitor Monteiro, Jornal da PUC, Dezembro de 2008.
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Quartetos para Sá-Carneiro

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A moldura do espelho é ouro
Quadriculando as reticências...
Projeção de mim para o outro —
Dispersão ancestral de retinas.

Taciturno trovador a pensar
Perdido nos salões de si mesmo.
Pilastra incapaz de sustentar
Um sentido perdido ao esmo.

Desconstrução mobiliada do eu,
Nova decoração de Portugal.
Finda a catábasis d’Orfeu,
Bebeu veneno à provençal.
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Continho do João com sono

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Era tarde da noite e João dormia pesado.
Toca o telefone. Após uns toques, ele atende:
— Alô? — diz com voz de sono.
— João Smitch? — Pergunta uma voz soturna.
— É ele.
— Nós acabamos de colocar uma bomba no prédio. Ou você transfere 500 mil dólares para a nossa conta, ou explodiremos o quarteirão.
Silêncio.
— Não há problema que não possa esperar até amanhã. Boa noite.
— Você não está enten...
Ele desliga o telefone e volta a dormir. Como um anjo.
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Pranto

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Nada machuca tanto
(e gera mais espanto)
do que o curto corte
da fina folha em branco.
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Homens do deserto

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Esses homens do deserto
vêm puxados a camelo
com seus panos coloridos
envolvidos nos cabelos.
Retorno de tempos idos
muitos anos, isso é certo,
têm os traços bem vividos
esses homens do deserto.

Esses homens do deserto
domadores de elefantes
têm os olhos bem abertos
como bons negociantes.
Venha logo, meu amigo,
venha ver o quanto antes
esses homens do deserto
domadores de elefantes.

Esses homens do deserto
com seu mármore esculpido
construíram os castelos
que encantaram o mundo inteiro.
Contemplaram as montanhas
com seus templos de marfim,
e hoje vendem por barganhas
belos cortes de cetim.

Esses homens do deserto,
esse clima quente e seco
de um país largado a ermo.
Eu preciso ouvir de perto
a canção que não entendo
para ver se estou desperto
ou se os homens que enxergo
são miragens do deserto.
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Desejo antigo

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Vejo às margens deste Tejo,
vindo a flutuar, senil,
a lembrança de um beijo
que jamais aconteceu.

Eis que uma gaivota branca
chegada não sei de onde
com fino bico a apanha –
sai voando para longe.

Ei! Devolva-me, gaivota!
Mesmo que não seja jovem,
quero essa minha memória.

Pois dentro de todo homem
há sempre lugar na história
Para aquilo que não houve.

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Distância

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Os textos de botânica
................................não cheiram como as flores.

A receita do pudim
.............................não tem calda e nem sabor.

O retrato da vovó
..........................não reclama estar com dores.

Os meus filmes de viagem
.......................................não me tiram de onde estou.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Três construtos

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Existe mais verdade
no rastro da cobra
que rasteja no chão
escrevendo na areia
do que nessas palavras tolas
mera observação, por certo besteira.

Existe mais verdade
em qualquer vôo de pássaro,
na invisível movimentação de ar
escrita com a ponta das penas,
do que nessas palavras fugazes
tentativa de contemplação digna de pena.

Porém, não fossem essas palavras hábeis,
zumbindo entre o céu e o chão,
nunca que estaríamos aptos
para ver verdades alheias
a escrita invisível do pássaro,
o rastro da cobra na areia.
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Aurora

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5:40
Os primeiros raios de luz
entram pelas frestas mal fechadas
apagando a rubra constelação de standbys.

6:22
Do enorme silêncio
ouve-se um barulho junto à porta:
o jornal cacarejando o mundo.

7:00
Sucessão de apitos
concerto de passos ecoando pelas estruturas
um cachorro que não para de latir.
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Jardins

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I

A embromação das bromélias
cintila. Senti-la é coisa de
inseto. Exceto quando estamos
juntos, no junco... Fujo, urge
algo em mim, um ungüento!
Sim, por fim o estorvo, o retorno
às bromélias, a eterna embromação
das bromélias que cintila.


II

O delírio dos lírios:
Lançar folhas como
lanças verdes que vertem
laterais, perfilam o tempo-
espaço fincando o compasso
da ferida de onde se levanta
seu propósito (uma leucócita
flor branca


III

Não fosse o querer tudo
ao mesmo tempo
das abelhas que voam
de flor em flor
talvez não houvesse
a primavera
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Pôr do sol na Caxemira

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Aquele pôr do sol
maravilhoso
revelou-se,
colorindo
nuvens,
caindo sobre casas e morros
e, não
satisfeito,
ainda repetia
o efeito, multiplicando-se
ondulado nas águas do Lago Naguí.
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